Fera que vive de vento

Esta é uma ilustração do Frei André Thevet (1502-1590), entitulada "Fera que vive de vento". O franciscano participou da excursão de Villegagnon ao Brasil e muitos historiadores atribuem a ele (e não a Jean Nicot) a introdução do fumo na Europa. As sementes teriam sido levadas de Pindorama por ele mesmo, que reportava efeitos medicinais da aspiração da fumaça das folhas. Não sei se havia alguma coisa além de tabaco no "tratamento", mas tinha que se ter muita fumaça nas idéias para chegar num bicho desses.

Viver de vento não é fácil.

A mesma dificuldade passa o portal "Domínio Público", uma iniciativa do MEC de montar acervo de arquivos multimídias (imagens, sons, filmes, livros) de obras com divulgação autorizada para o público. Aparentemente, se o número de visitas não aumentar (leia-se: se não houver interesse por parte da população cibernavegante), o "site" será desativado. Agora pense: onde mais se pode ter acesso livre e grátis a mais de 700 obras da literatura portuguesa? Palestras, documentários? Ilustrações como essa do tema? É absurda a desativação do portal ainda em sua infância. Não se pode perder a oportunidade de divulgá-lo.

Fogo no circo

Quando eu era moleque, durante o regime militar, havia um xingamento que era a pior coisa de que se podia chamar alguém. Pior do que invocar qualidades íntimas de genitoras ou sugerir cavidades anatômicas para a inserção de objetos. Muito pior. Isso porque além do insulto, havia o medo de ser preso, levado embora, sumido. Afinal, a suspeita havia sido levantada. E a família já era automaticamente incluída. Ser chamado de "subversivo" era realmente o fim da picada. "Aquele moleque é um subversivo!", "Mais um subversivo foi preso ontem à noite...", "Meu Deus, isso só pode ser coisa de gente subversiva!". 

Na época, a preocupação do regime quanto a atividades subversivas era bem fundada. A subversão gera a desestabilização, que enfraquece as estruturas do estado. Expõe as fraquezas. Destrói a confiança e a tranqülidade. As grandes potências mundiais sabem muito bem disso e usam-na estrategicamente em maior escala, em diversas regiões do globo, para facilitar o controle político ou dominar mercados.

Veja o caso do Oriente Médio: vocês se lembram de como eram vilanizados os xiitas até pouco tempo? "Radicais suicidas", "fanáticos religiosos", "extremistas capazes de qualquer coisa", "assassinos bárbaros", e por aí a fora. Badaladíssimos nos noticiários da TV de todo o mundo (ocidental, bem entendido), "xiita" virou xingamento também. Eram os alvos preferidos do ódio americano.

Acontece que Saddam Hussein, ditador do Iraque, era sunita (minoria religiosa em seu país) e tratava os xiitas com mão de ferro, tão duramente quanto os curdos. Que são, aliás, uma etnia, querem mais é distância da briga e reivindicam independência para seu povo. Enfim -- Depois que o governo americano mandou invadir aquele país sob o pretexto de neutralizar um suposto arsenal de armas de destruição em massa e depôs seu ditador, colocaram no poder justamente... os xiitas.

Os antigos inimigos agora viraram amiguinhos? Não tão depressa: os xiitas iraquianos estão fragilizados, mas este não é o caso da maioria xiita do Irã - o Grande Inimigo Da Vez - e a ordem é desestabilizar, lembra? Então: para que fracasso maior do que o tal "processo de democratização" do Iraque, incentivado pelo tio Sam mas conduzido pelas novas autoridades xiitas iraquianas? E como perder a oportunidade de deixar os xiitas executarem o Saddam justo no primeiro dia do feriado sagrado de Eid Al-Adha, de sacrifício para os mulçumanos, quando a "ovelha é imolada e sua carne é dada aos famintos, quando se dá dinheiro aos pobres e brinquedos às crianças"?

Enquanto isso, na Palestina, onde Saddam Hussein ainda é lembrado como alguém que lutou contra Israel e venceu, o Irã dos xiitas é visto como quase tão culpado pela execução do ex-ditador quanto os americanos.

Isso é que é ser subversivo.

Oh... é verde!

Na Sicília da Idade Média diz-se que havia o costume de pintar de verde o pênis do noivo, antes da lua-de-mel. Se a noivinha mostrasse surpresa ao defrontar-se com a obra de arte durante o primeiro momento íntimo, era motivo bastante para o nubente cancelar o casamento. Significaria que sua parceira já teria visto um membro... desbotado antes e, portanto, não seria mais pura e casta. Não sei por que essa tal de pureza e castidade atrai alguns homens até hoje. Enfim...

Por falar em coisas verdes e estranhas, os cientistas de Taiwan recentemente conseguiram criar leitões transgênicos totalmente flourescentes. Verde, mesmo, daqueles que brilham no escuro. Pegaram material genético de águas-vivas e injetaram nos embriões suínos. Até aí, nada de novo: só mais uma esquisitice asiática. Mas fiquei intrigado: Porque alguém iria querer produzir porquinhos que brilham no escuro? Se fosse, pelo menos, fluorescência peniana, até poderia entender que seria divertido. Mas um porco?

A razão, depois soube, não é a baixaria que pensei de início. Trata-se de parte da pesquisa com células-tronco. Como o porquinho "fashion" brilha por inteiro, as células-tronco tiradas dele também apresentam a mesma característica. Assim, fica mais fácil para os pesquisadores acompanhar a evolução daquelas células depois que são injetadas em outras cobaias sem a mesma resplandescência.

Ah... antes que esqueça: os nomes daqueles outros três porquinhos são Prático, Heitor e Horácio.

Toro!

Acredite, se quiser: 94% das notas de euro da Espanha têm traços de cocaína. Pelo menos é o que revela o estudo realizado pelos laboratórios Sailab, publicado no jornal El Mundo no dia 24 de dezembro. As notas foram coletadas em escolas, farmácias e em supermercados. A Espanha é um dos países que mais consomem a droga no mundo. O preço da coca lá é cerca de 60 euros o grama, o que a torna acessível a um número crescente de consumidores. Segundo o estudo, 1,6% dos espanhóis são usuários do pó. Já não fazem mais touradas como antigamente.

Erva de um passado distante

Hoje em dia não é mais espantoso encontrar múmias bem preservadas em escavações arqueológicas. De fato, uma múmia nem faz mais tanto sucesso quanto fazia no início do século passado. Veja o caso de Turpan, no noroeste da província de Xinjiang, na China. Lá, em 2003, foi descoberto um aglomerado de 2.000 tumbas, com cerca de 600 múmias, da época da dinastia Tang (618 - 907). Isso mesmo, no atacado.

A novidade é que os cientistas estão intrigados com uma delas, de um homem de cerca de 45 anos cuja morte ocorreu há 2.800 anos - muito anterior às demais. Os chineses estão tentando entender, também, o por quê dos traços caucasianos - pele branca, nariz de romano, olhos fundos... e junto ao corpo, um saquinho com folhas de maconha! Apesar da idade, a múmia está intacta e suas roupas também. Quer mais? Urumqi, a capital da província, está localizada no coração da antiga "rota da seda", e é o centro islâmico da China, com dezenas de mesquitas espalhadas pela cidade. Cartazes e placas informativas são escritos até hoje em Chinês e em Uyghur, uma língua que usa a grafia árabe desde o século X.

In memoriam pater meum

Wagner Menezes (1935-2006)

"A terra, mãe das árvores e das flores, recebe o teu corpo mas teu cérebro não será cinza, será luz; teu coração não será pó, será árvore que agasalha. Tu, que viveste repartindo bondade, infinitamente repartindo, viverás nas folhas, nas flores, nos ventos, nas saudades. Não morre quem nos outros vive; não morre quem nos vivos vive." -W. Berardinelli (1903-1956)

Blog, interrompido


Blá, blá , blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

A pequena morte

Os franceses o chamam de "la petite mort". Um instante, no clímax do orgasmo, quando a pessoa desfalece por alguns segundos. É mais freqüente nas mulheres do que nos homens - embora não seja comum em nenhum dos dois. Antigamente acreditava-se que era causa de óbito: sexo demais podia matar as pessoas. Bandeira vitoriana, moralista, com certeza. Naquela época, era moda se preocupar muito com os "fluidos corpóreos" - ou com o desperdício deles. Provavelmente influenciados por Galeno, um médico grego da antigüidade que dizia haver quatro fluidos ou humores do corpo, associados aos quatro elementos da natureza: fleumático (água), sanguíneo (ar), colérico (fogo), melancólico (terra). As doenças dos seres vivos derivariam de um desequilíbrio entre esses fluidos. A ejaculação freqüente, entre outras coisas, comprometia o equilíbrio e a pessoa adoecia, podendo chegar à morte. Êita! - Bom, era o que pensavam. Bem como o surtado Gen. Jack D. Ripper, de "Dr. Strangelove", uma das obras-primas de Kubrik.

Entra em cena o "Beautiful Agony": um site dedicado à beleza do orgasmo humano (sic). Pode ser uma experiência muito erótica -- embora a única nudez exibida seja do pescoço para cima. Os "contribuintes" filmam-se tendo orgasmos e põem seus filminhos no site, para o deleite dos "associados". Segundo o dono do serviço, "não sabemos o que estão fazendo, nem como. Mas sabemos que é real e muito sexy". Pelo jeito, ninguém está mais preocupado com a quantidade de fluidos corpóreos derramada por aí.

Ah... isso é coisa de inglês. E sim, tem amostras grátis.

Ervas

Hoje recomeça, nos Estados Unidos, o seriado "Weeds" ("ervas"): Uma mãe-de-família da pasteurizada e alienada classe média americana passa a vender maconha para sua bem-comportada vizinhança depois que seu jovem marido morre de enfarto. Por trás da falsa moralidade, a sociedade se revela. Não bastasse o argumento provocativo e um elenco bem montado, os diálogos mordazes são hilários. Surpreendentemente, há tempos um seriado não batia tão forte na hipocrisia e ignorância da sociedade mais massificada do planeta. E continua no ar! A explicação vem dos próprios fãs: o tipo de gente que elegeu Bush não assiste a esse tipo de comédia inteligente. E quando assiste, não a entende muito bem. Além do mais, só é exibido na TV a cabo. Há! Mas o mundo todo acompanha os episódios, pela TV ou pela Internet.

Veja esse trecho de conversa entre Andy, o cunhado porra-louca, e Doug, membro do conselho municipal, enquanto se alternam cachimbando a "maria" (tradução minha):
- Bom, eu não vou pro Iraque lutar uma guerra de mentira por dinheiro de petróleo.
- Guerra de mentira? E o onze de setembro? O Irã não escondeu os terroristas?
- Estamos em guerra com o Iraque, Doug. E nenhum dos dois países teve nada a ver com a explosão das Torres Gêmeas.
- Bem... os dois têm areia.
- Bush invadiu uma nação soberana, afrontando as Nações Unidas. Ele é um criminoso de guerra. E agora querem que eu seja um de seus capangas, no meio do deserto, com a porra de um alvo na minha cabeça, esperando ir para os ares num carro com uma bomba armada por um moleque de 12 anos que adorava "Friends" e "Metallica" até que um de nossos mísseis explodiu a casa dele? Eu, não.
- Eles tinham armas de destruição em massa.
- Nunca houve armas de destruição em massa!
- Não? Bem... o que seja. Olhe, eu tenho um monte de coisas pra fazer.
- Me diga uma só coisa que você tem que fazer que seja mais importante do que a tomada de nossa democracia pelas corporações?
- Eu tenho que dar uma cagada.

Só uma coisa: se você estiver fora dos Estados Unidos, poderá não ver o site do seriado. Os produtores (Showtime) costumam não permitir acesso externo. Eis o link: www.sho.com/site/weeds/home.do

Não permitem, mas não conseguem impedir. Entre no site www.proxy.org, digite o endereço acima, escolha um proxy e deixe o espírito de liberdade da Internet agir. E veja as novidades do seriado.

Santo de casa

O progresso tecnológico dos últimos tempos é produto de inúmeras contribuições individuais de grandes homens e mulheres. De vez em quando, um nome é associado singularmente a uma idéia, e gostamos de chamá-lo de "pai" disso e "mãe" daquilo: Mme. Curie é a mãe da radioatividade. Einstein é pai da relatividade. Volta é pai da pilha elétrica, Tesla das bobinas, Hertz das ondas eletromagnéticas, Marconi é do rádio... Ôpa!

Você pensou em Marconi, também, não é? Mas a verdade é que um brasileiro, um padre gaúcho, chamado Roberto Landell de Moura é que seria o nome certo. Marconi é o do telégrafo. Aquele que faz bi-biii-bi, sinais baseados no código bolado por Morse, com o operador fazendo curto-circuito nos fios. E Graham Bell é o do telefone. Na base do fio também. De um aparelho para outro, ligados entre si. Não existia a transmissão de voz, sem fios, pelo ar. Porque não sabíamos disso? Talvez pela incompreensão dos contemporâneos de Robertinho, o porra-louca da época: em lugar de receber glória, sofreu o ridículo e a perseguição. O homem era chamado de "lunático, louco, bruxo e diabólico". Nem os seus superiores religiosos foram capazes de apoiá-lo e chegaram a proibi-lo de continuar com suas "estranhas manias de inventar aparelhos elétricos e de tentar transmitir a voz a distância".

Em 1901, foi pra gringolândia, em busca de melhor sorte. Comeu o pão que o diabo amassou, mas conseguiu, pelo menos, patentear três inventos originais para "um transmissor de ondas", um tipo especial de "telégrafo sem fios" e outro de um modelo pioneiro de "telefone sem fios" (patentes de números 771.917, 775.337 e 775.846 do U.S. Patent Office). Voltando ao Brasil, continuou sem o apoio de seus conterrâneos. Tentou fazer a demonstração de seus equipamentos em navios da Marinha de Guerra, no Rio de Janeiro, mas não foi levado a sério. Conta-se que, quando um auxiliar do Presidente Rodrigues Alves lhe perguntou a que distância queria que os navios ficassem da costa, para a realização das experiências, o padre lhe respondeu: "A quantas milhas quiser, pois meus aparelhos podem funcionar a qualquer distância e poderão servir, no futuro, para comunicações interplanetárias". O pedido foi arquivado, sob a alegação de que a "Marinha tinha coisas mais importantes a fazer do que se submeter a experiências de padres malucos".

É isso aí, Robertinho, religioso e cientista (que mistura!): santo de casa não faz milagre. Mas quem sabe a Internet não consegue resgatar sua história e lhe fazer justiça? Já não seria sem tempo. Façam uma busca no Google a procura dele. Vocês vão se surpreender.

E repitam comigo: Landell de Moura, o pai da transmissão da voz por rádio, avô do telefone celular!